XX SEMANA DE HISTÓRIA - UFG: HISTÓRIA PÚBLICA E AMEAÇAS À DEMOCRACIA

25 Out 2021 0 comment
A globalização acelerou os processos comunicativos através de suas redes de articulação. Mas com isso cresceram também as agressões e ameaças ocultas à alteridade. Uma suposta possibilidade de exercício democrático no mundo virtual nos iludiu em grande medida, fazendo acreditar que o acesso à informação seria o suficiente para garantir a participação ampla e irrestrita das pessoas nesta grande arena de debates. (1) Nos últimos anos percebemos que esse “novo modo de participação” ajudou a eleger líderes antidemocráticos, cujas estratégias se pautaram justamente pelo uso das novas tecnologias e da interação acelerada com os usuários desse espaço de comunicação.

A dimensão pública do conhecimento, no entanto, não se limita à rede de informação virtual. Museus, praças, televisão, cinema, teatros, festas, exposições, roteiros de turismo, dentre outras formas de publicitação dos saberes são mediadores de uma construção coletiva de conhecimento, apontando que a universidade é apenas um dos lugares em que esse processo se desencadeia. Neste cenário, a História Pública emerge como possibilidade de compreender e dialogar com esses outros espaços de articulação, em que o saber cientificamente construído nem sempre é a referência de quem elabora os seus enredos.

A História Pública consiste em um esforço colaborativo que visa compreender as narrativas históricas para além do âmbito acadêmico e escolar. Busca democratizar o processo de construção do conhecimento histórico, sem dispensar a seriedade analítica que caracteriza o saber científico. Nesse sentido, tende-se a despertar a consciência histórica de um público mais amplo e diverso.(2) Nas décadas recentes, ela vem se tornando um caminho para fazer história de forma pluralizada, incentivando a comunidade a participar com as suas próprias narrativas.

Pensando nesse cenário de redes de comunicação e de articulação entre academia, escola e sociedade, vislumbramos possibilidades de “invadir” espaços que os saberes cientificamente elaborados por vezes não conseguem ocupar da forma como poderiam. Para isso, é necessário que pensemos sobre as especificidades da historiografia e de sua trajetória enquanto saber historicamente elaborado, para a partir daí projetar possibilidades e reconhecer os limites da interação com as demais formas de saber.

A XX Semana de História da UFG, ao eleger a temática “História Pública e as ameaças à democracia”, colabora para que esse debate se faça presente no âmbito acadêmico, reconhecendo as múltiplas possibilidades de produção e divulgação de conhecimento histórico na perspectiva aqui apresentada. Lança, assim, o desafio de pensarmos coletivamente as interrelações entre essas histórias públicas e os ataques à democracia, considerando a cultura histórica e o tempo presente no mundo globalizado.

Essas ameaças despertam a necessidade de um amplo debate público e não somente o consumo de informação. A História Pública pretende ampliar a participação dos diferentes sujeitos que produzem as narrativas em seu cotidiano, a partir de perspectivas diversas e muitas vezes conflitantes com aquilo que se produz e pensa na academia. O modo como as pessoas interpretam a experiência temporal(3) de si mesmas e do mundo em que vivem produz um cabedal de memória coletiva, patrimônios históricos, identidades, representações e narrativas que não podem ser ignoradas ou desprezadas por quem pretende investir na produção do conhecimento histórico.

Convidamos a todos e todas para se integrar a esse grande debate a favor de histórias públicas viabilizadoras de uma cultura democrática que respeite e garanta a dignidade humana. Nessa arena que se tornou ainda mais frequentada desde o começo da pandemia de Covid-19, principalmente em sua versão virtual, vislumbramos “[...] disputas vigorosas, na qual adversários ideológicos lutam pelo legado, patrimônio e memória pública de acontecimentos ocorridos há muito ou há pouco tempo, e que ainda estão de desdobrando”.(4) Quais são os desafios lançados a nós, interessados e interessadas em “pensar historicamente”, nesse cenário de ameaças à democracia?


1 - LOWANDE, Walter. A internet é garantia de democracia? In: ROVAI, Marta (org.). Revisionismos: a universidade esclarece. São Paulo: Mentes Abertas, 2020, p.89-104.

2 - ALBIERI, Sara. História Pública e consciência histórica. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de Almeida; ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira (org.). Introdução à História Pública. São Paulo: Letra e Voz, 2011, p. 19-28.

3 - RÜSEN, Jörn. Didática da história: passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 1, n. 2, p. 07-16, jul-dez. 2006.

4 - ZAHAVI, Gerald. Ensinando História Pública no século XXI. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de Almeida; ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira (org.). Introdução à História Pública. São Paulo: Letra e Voz, 2011, p. 53.

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