III SEMINÁRIO INTERNACIONAL HISTÓRIAS DO PÓS-ABOLIÇÃO NO MUNDO ATLÂNTICO

29 Nov 2022 0 comment

O 3º Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico, vinculado ao GT Emancipações e Pós- Abolição da ANPUH (Associação Nacional de História), busca contribuir para os debates da história social da escravidão e do pós-abolição. O seu propósito é reunir pesquisadores(as) acadêmicos(as) e professores(as) do ensino básico dispostos a refletir, ampliar, aprofundar e compartilhar suas experiências de pesquisa e de ensino sobre a temática. Em atenção aos processos de emancipação e às lutas por liberdade e cidadania anteriores à assinatura da Lei Áurea, consideramos importante destacar o papel que pessoas escravizadas, libertas e livres “de cor” desempenharam, por meio de suas trajetórias individuais e/ou coletivas, assim como aprofundar as discussões sobre os significados da liberdade, abolicionismos e lutas por direitos e conquista de lugares sociais diversos. Tendo em vista o pós-abolição como conceito e temporalidade, conforme pontuam Frederick Cooper, Thomas Holt e Rebeca Scott, e, ainda, como problema histórico, conforme Ana Lugão Rios e Hebe Mattos, interessa-nos refletir acerca das construções identitárias em jogo no referido período, bem como suas implicações políticas, conteúdos culturais e transformações ao longo dos séculos XIX, XX e XXI. Neste sentido, almeja-se congregar pesquisas com foco nas configurações sociais estabelecidas no pós-Abolição e nos processos de construção e ampliação da liberdade, com recortes cronológicos anteriores e posteriores à lei de 13 de maio de 1888.

Muitos dos temas desenvolvidos no Grupo de Trabalho Emancipações e Pós-abolição (GTEP/ANPUH) foram vistos e debatidos em 2020, ainda que tangencialmente, nas principais mídias, nas casas, nas ruas, no trabalho. O objetivo agora é ampliar essas discussões para o foro internacional, ampliando trocas e saberes com profissionais estrangeiros. Talvez nunca se tenha falado tanto da situação das populações negras, de seus desafios e de suas reivindicações e lutas históricas. Os desafios do pós-abolição, como os problemas de acesso à terra, trabalho e renda, a persistência do colonialismo, do racismo, da repressão e opressão se evidenciaram e se tornaram mais agudos nas diferentes margens do Mundo Atlântico.

A pandemia de COVID-19 conectou e desconectou continentes e grupos, mas também tornou evidente cenários e processos nos quais, por exemplo, o assassinato de negras e negros se inserem em uma escalada de violência desenhada com dados, tabelas, gráficos, e que foi registrada, vista, ouvida, acompanhada, negligenciada, mas também enfrentada. Esse Seminário Internacional convidar-nos-á a discutir os fios que conectam as desafiadoras realidades das Américas, África e Europa, desde os processos de emancipação e pós-Abolição. Discutiremos as diferentes experiências de mulheres e homens negros no que se referem às relações raciais, de gênero, familiares, culturais e no mundo do trabalho, e que abrangem lutas políticas, demandas sociais e reparatórias ao longo dos séculos XIX, XX e XXI.

Buscamos, com esse espaço, agregar pesquisas acerca das experiências, estratégias e sentidos da liberdade tanto em contextos coloniais, como na África e no Caribe, onde populações estavam subjugadas por estados imperialistas, quanto frente aos desafios impostos por Estados independentes, como nos EUA e Brasil, assim como no próprio território europeu. Tal perspectiva possibilita debates e abordagens transnacionais e comparativas, balanços historiográficos sobre o pós-abolição e colonialismo, estratégias de mobilização, associativismo e enfrentamento ao racismo, disputas e negociações por trabalho, direitos, sociabilidades, representações e memórias em contextos e territórios variados, nos quais se envolveram diversos sujeitos na história; além de incentivar reflexões sobre os impactos do fim do tráfico de africanos escravizados e da Era das Abolições para a África e para a Europa nos séculos seguintes. São bem vindos, de mesmo modo, trabalhos que abordem: o associativismo negro; a instrução; os territórios negros rurais e urbanos, bem como suas lutas por acesso à terra; as memórias da escravidão e da liberdade; os processos de racialização e os significados políticos das classificações raciais; as lutas antirracistas; a atuação negra na formação da classe operária; os vínculos interseccionais entre gênero, raça, classe e sexualidade; as trajetórias; migrações e deslocamentos; as religiosidades; narrativas das emancipações e do pós-abolição na educação básica, entre outras temáticas. O Seminário também pretende investir na área da Educação e do Ensino de História.

Dezenove anos depois da promulgação da Lei n. 10.639/03 e quatorze da Lei n. 11.645/08, temos um acúmulo de pesquisas, práticas e publicações sobre o ensino de história e culturas africanas, afro-brasileiras, indígenas e da educação das relações étnico-raciais no Brasil, mas é preciso investir mais em trocas de pesquisas e experiências de outros países. A descolonização curricular é um dos desafios colocados por estes marcos legais e implica o rompimento com a matriz epistêmica ancorada em referências eurocêntricas e na concepção de sujeito universal. Nesse sentido, o 3º Seminário Internacional tem como proposta ampliar a relação entre professoras/es e pesquisadoras/es da educação básica e de universidades, bem como de outros espaços educativos, interessadas/os na desconstrução dos discursos hegemônicos e que desenvolvem saberes emancipatórios no âmbito do antirracismo internacional. Ancorados nas Diretrizes que instituíram as referidas Leis, temos interesse nas seguintes abordagens: descolonização curricular e práticas transgressoras em diferentes espaços educativos; narrativas, metodologias e epistemologias contra-hegemônicas sobre as populações negras e indígenas; patrimônio cultural, história pública e ensino de história; materiais didáticos, cidadania digital e tecnologias para o ensino de história; avaliação do alcance das Leis em diferentes comunidades, instituições educativas e espaços de produção e circulação de conhecimento. Acreditamos que este 3º Evento internacional será, efetivamente, uma oportunidade ímpar para o fortalecimento e a ampliação da rede de historiadoras/es dedicadas/os ao estudo de sujeitos, trajetórias e processos levados a cabo em período posterior – e também anterior – à Abolição da escravidão no Brasil e outras partes da América, bem como da África e da Europa. O Rio de Janeiro concentra o maior número de programa de pós-graduação em história do país. A história social do trabalho tem uma longa tradição como tema de pesquisa e área de concentração importante em praticamente todos os programas em história no Estado. Universidades como UFF, UFRRJ, UFRJ, UERJ, UniRio e PUC-Rio reúnem alguns dos maiores especialistas deste campo de estudos atraindo um importante contingente de estudantes e pesquisadores.

Desta forma, a realização deste evento no campus do Gragoatá da UFF tem tanto um importante papel de consolidar essa fundamental rede de pesquisadores no estado permitindo maior visibilidade em termos nacionais e internacionais, quanto o de estimular ainda mais alunos e alunas de graduação e pós-graduação interessados na temática. O contato direto com debates de ponta nesse campo do conhecimento, bem como com estudiosos consagrados brasileiros e estrangeiros tem o potencial de criar um importante impacto e estímulo para reflexões teóricas e novas pesquisas que tanto tenham a história do trabalho do estado como tema, quanto consolidem o Rio de Janeiro como principal polo de produção acadêmica no país na área do pós-abolição. Por fim, a escolha da UFF na Baixada Fluminense, como sede do evento é particularmente feliz e simbólica, na medida que impacta positivamente a articulação interdisciplinar de pesquisas históricas nas áreas de trabalho, mundo urbano, religião, relações raciais e de gênero, particularmente importantes naquela região do estado do Rio de Janeiro.

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