REVISTA TEMPOS HISTÓRICOS

Organizadoras: Profa Dra Maria Fernanda Baptista Bicalho (UFF) e Profa Dra. Monica Ribeiro (UFRRJ)

O dossiê propõe reunir artigos que dialoguem com as reflexões acerca da formação e do desenvolvimento dos diversos e distintos territórios que constituíram o domínio luso na América, buscando perceber as especificidades e as dinâmicas estabelecidas nas diferentes regiões, e que possibilitaram a ocupação dos espaços ao longo dos três séculos de colonização.

A conquista do território era preocupação constante da Coroa portuguesa, primeiramente na região litorânea e, posteriormente, com a expansão para o interior. As vilas, as cidades, os arraiais e os múltiplos sertões complexificaram a experiência de constituição de localidades que funcionavam para inúmeros propósitos, tanto locais, quanto regionais e até mesmo imperiais.

A temática das demarcações de fronteiras centrais, meridionais e setentrionais também permeou a política ultramarina portuguesa ao longo de toda a época destacada, com períodos de maior tensão entre os Impérios ibéricos pelo controle das regiões. Desencadearam-se diversos conflitos e assinaturas de tratados, buscando estabelecer os limites entre os territórios, mas as disputas se estenderam até os Oitocentos.

Ao falar de fronteiras e de sertões, vale evidenciar os povos que habitavam os territórios, com destaque para o papel dos indígenas. Como destaca a historiadora Glória Kok,

“a cartografia indígena auxiliou no processo de decodificação do espaço convencionalmente chamado ‘sertão’ pelos adventícios. Agentes de colonização da capitania de São Paulo (bandeirantes, soldados, povoadores, burocratas, comerciantes e aventureiros) mapearam cuidadosamente os territórios interiores. A situação colonial, entretanto, impôs uma nova orientação do espaço, bem como classificou os grupos étnicos em categorias distintas, fixas e homogêneas.”[1]

De acordo com a autora Elisa Garcia, se referindo à área do Rio da Prata, a trajetória dos índios nos domínios portugueses foi

“bastante complexa, excedendo os espaços das aldeias, sem necessariamente perder os seus vínculos com elas. Parte dessa vivência estava marcada pela condição de fronteira da região, pois a população indígena dominava muito bem a situação de permanente litígio e a utilizava para satisfazer os seus interesses”[2].

A partir dessas perspectivas de análise, o dossiê tem a intenção de agrupar pesquisas de distintas abordagens, que destaquem aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais, religiosos e/ou arquitetônicos acerca dos territórios que hoje compõem o Brasil, e que passaram por intensas e múltiplas transformações entre os séculos XVI e XIX.

 

Referências

BICALHO, Maria Fernanda e PESSÔA, José (orgs.). Cidade, sociabilidade e patrimônio: as capitais no império português e no Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa, Eduff, Faperj, 2021.

CHAMBOULEYRON, Rafael. Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia colonial (1640-1706). Belém: Açaí/PPHIST-UFPA/ CMA-UFPA, 2010.

FONSECA, Cláudia Damasceno. Arraiais e vilas d’el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

GARCIA, Elisa F. As diversas formas de ser índio: políticas indígenas e políticas indigenistas no extremo sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009.

HERZOG, Tamar. Fronteiras da Posse: Portugal e Espanha na Europa e na América. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2018.

IVO, Isnara Pereira. Homens de caminho: trânsitos culturais, comércio e cores nos sertões da América portuguesa. Século XVIII. Vitória da Conquista: Edições Uesb, 2012.

JESUS, Nauk Maria de. Cenários da fronteira oeste: História e Historiografia de Mato Grosso (séculos XVIII e XIX). Cuiabá: EdUFMT, 2020.

KÜHN, Fábio; NEUMANN, Eduardo Santos (org.). História do Extremo Sul: A formação da fronteira meridional da América. Rio de Janeiro: Mauad X, 2022.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de (org.). História dos Sertões: Conexões Coloniais. Aracaju: Criação Editora, 2023.

REIS, Nestor Goulart. As minas do ouro e a formação das capitanias do sul. São Paulo: Via das Artes, 2013.





[1] KOK, Glória. Vestígios indígenas na cartografia do sertão da América portuguesa. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.17. n.2. p. 91-.109 jul.- dez. 2009, p. 1.

[2] GARCIA, Elisa. Ser índio na fronteira: limites e possibilidades. Rio da Prata, c.1750-1800. Nuevo Mundo-Mundos Nuevos, v. 2011, p. 60732, 2011, p. 1.

Informações adicionais

  • Tema: Cidades, fronteiras e sertões: os territórios da América Portuguesa, séculos XVI-XIX
  • Prazo: 20/05/2024