NOTA DE REPÚDIO À CENSURA E AO REVISIONISMO

A Associação Nacional de História manifesta o seu repúdio às recentes e infelizes declarações de um general da reserva do Exército brasileiro, proferidas em uma entrevista pública. Na ocasião, o referido senhor, integrante de uma das mais importantes instituições do país, sugeriu o estabelecimento do controle da pesquisa e do ensino do Brasil.
Em face à crescente militância de extrema-direita, organizada para constituir uma proposta para o ensino no país, conhecida pelo nome de “Escola sem partido”, é por demais preocupante a manifestação de um general da reserva que - na contracorrente do que sabemos hoje sobre regimes autoritários e a falácia da “ameaça comunista” - vem a público para alimentar um medo descabido e sem sentido, numa suposta doutrinação esquerdista nas escolas.
Ao alastrar uma visão acerca dos livros didáticos e se colocar na posição de um avaliador do conhecimento presente naquelas obras, o general da reserva manifesta seu anseio de imprimir uma visão sobre o passado para impor uma versão adocicada do golpe de 1964 e da ditadura em que outrora vivemos em tempos sombrios.
Foi também lamentável a declaração do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, em palestra proferida no dia 01 de outubro, na Faculdade de Direito da USP, onde afirmou não entender como golpe, mas como “movimento”, o que levou os militares ao poder em 1964. Este tipo de afirmação desqualifica toda documentação acumulada pelo regime, além do trabalho de historiadores e historiadoras, mostrando a tortura, o desaparecimento e a morte de inúmeras pessoas.
A ANPUH, em nome de todos os seus associados, reitera que não abriremos mão do primado da evidência e somará esforços para que o entendimento sobre o nosso passado seja compartilhado pelos cidadãos deste país. Longe de se calar em face de declarações como estas, a associação está e estará sempre atuando para que a História, enquanto conhecimento produzido nas universidades e instituições de ensino, seja respeitada e não se perca nas poeiras do tempo.
Em suma, como historiadores(as) e professores(as) de história temos o dever cidadão de impedir o espalhamento da ignorância sobre o passado da Nação. Temos o dever de lutar contra toda forma de censura ao conhecimento. A intolerância não será jamais nossa companheira.
Diretoria da ANPUH-Brasil e diretores das seções estaduais da ANPUH