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QUEM MAPEOU OS CAMINHOS DO SUL?

No século XIX, o Estado expulsava indígenas de suas terras e, ao mesmo tempo, dependia deles para descobrir e mapear o território
 EXISTIU UMA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

LI: Mapa do Sul do Império do Brasil e Paizes Limitrophes”, de H. L. dos Santos Werneck e C. Krauss,
publicado em 1865 e elaborado por encomenda do ministro e secretário de Estado dos Negócios da Agricultura,
do Comércio e das Obras Públicas do Império do Brasil.

Quem mapeou os caminhos do sul?
No século XIX, o Estado expulsava indígenas de suas terras e, ao mesmo tempo, dependia deles para descobrir e mapear o território.

por Amanda Both

Quando pensamos na formação do território brasileiro, raramente pensamos no trabalho indígena. No entanto, ele esteve no centro da construção de caminhos, vilas, mapas e fronteiras. Eram os indígenas aldeados que abriam e mantinham estradas, carregavam alimentos e ferramentas ao lado de soldados e guardas nacionais. Mas uma parte igualmente importante desse trabalho era intelectual: eles guiavam as expedições de exploração. Conheciam os rios, os campos, as matas. O trabalho indígena era parte do próprio funcionamento do Estado, o mesmo Estado que, ao mesmo tempo, empurrava essas populações para fora de suas terras. O Rio Grande do Sul é um bom exemplo dessa contradição, ainda que não seja assim que ele costuma ser lembrado.

O estado é muito associado à presença de descendentes de imigrantes europeus, sobretudo alemães e italianos. A presença indígena, por outro lado, costuma aparecer na narrativa como um capítulo encerrado: relacionada principalmente ao tempo das missões jesuíticas, que entraram em colapso após o Tratado de Madri (1750) e a expulsão dos jesuítas. Uma história que parece pertencer ao período colonial, como se os indígenas tivessem desaparecido antes mesmo do Brasil se tornar Brasil.

Contudo, o Estado brasileiro, criado após o rompimento com Portugal (1822), também tem a sua história baseada na exploração do trabalho indígena, nas suas diversas formas, inclusive no Rio Grande do Sul. Na segunda metade do século 19, a metade norte do estado era a região que mais atraía a atenção do poder provincial. As densas florestas do planalto haviam sido menos exploradas pela colonização, que preferira os campos nativos, mais adequados para a criação de gado. Com o avanço das frentes de colonização, as condições que sustentavam o modo de vida dos indígenas foram sendo eliminadas, forçando-os a buscar abrigo nas matas ou a se deslocar para os aldeamentos criados pelo governo.

Os aldeamentos eram espaços onde os indígenas eram reunidos com o objetivo de torná-los sedentários e “civilizados”, segundo as concepções de civilidade das autoridades estatais. No Rio Grande do Sul, o principal foi o de Nonoai, criado na década de 1840, no distrito de Passo Fundo, e voltado principalmente para os Kaingang, que os documentos da época chamavam de “Bugres” ou “Coroados”. O modelo, no entanto, entrava em conflito com o modo de vida desses povos, e as fugas eram frequentes. Ainda assim, o governo utilizava esses mesmos indígenas para trabalhar.

Foi nesse contexto que uma descoberta fez o governo da província mobilizar militares, engenheiros e indígenas aldeados numa expedição pelo sertão do Uruguai, como eram chamadas as regiões não mapeadas no entorno do rio Uruguai. Em abril de 1857, chegou ao palácio da presidência da província, em Porto Alegre, uma carta do vigário da vila de São Borja. Ele informava que dois homens, Jesuino da Silva Nunes e Lauriano Vargas, haviam encontrado uma campina que parecia “farta de pastagens, cercada de abundantes ervais e densos bosques”. Contudo, não tinham conseguido explorar a campina nem chegar mais perto dos ervais por terem sido atacados por “uma horda de bugres [que] lhes saía ao encontro, obrigando-os a abandonar o terreno”.

Os ervais despertavam muito interesse, pois a erva-mate era um produto muito comercializado pela província, mas encontrava-se em um período de escassez. Diante disso, uma expedição foi organizada, reunindo militares, engenheiros e sete “índios mansos” — como eram chamados os indígenas aliados — do aldeamento de Nonoai, liderados pelo cacique Antonio Prudente. Várias foram as tentativas frustradas de localizar o dito campo. O próprio Lauriano Vargas, que o havia encontrado antes, entrou na mata três vezes, mas não conseguiu reencontrá-lo. Foi então que o cacique Antônio Prudente decidiu entrar na mata acompanhado apenas dos indígenas que o seguiam. O engenheiro Francisco Ravé registrou o momento, afirmando que viu com aflição os companheiros desaparecerem na solidão das matas, mas tinha o pressentimento de que dessa vez alcançariam o resultado, tamanha era a capacidade de orientação do cacique. De fato, 20 dias depois, o grupo de Prudente retornou: haviam encontrado o Campo das Vacas Brancas.

Na prática, descobrir um campo significava mapeá-lo, identificar formas de explorá-lo economicamente e defendê-lo de interesses estrangeiros, fossem de outros estados nacionais, como a Argentina, fossem de outras nações, como as indígenas. Foi assim que o Campo das Vacas Brancas, que não existia nos registros cartográficos da província, passou a figurar nas cartas provinciais e nos mapas do governo central. Posteriormente, foi instalado no campo uma colônia militar, fundamental para a defesa da fronteira com a Argentina. De sertão desconhecido a território dominado, graças ao trabalho e ao conhecimento dos indígenas que guiaram a expedição. O responsável formal pela empreitada foi Manoel Osório, então comandante da fronteira de São Borja. Ao que tudo indica, Osório nunca participou diretamente da expedição. Ainda assim, em 1871, ao receber o título de marquês, após sua atuação na Guerra do Paraguai (1864-1870), tornou-se Marquês do Herval — uma referência direta à descoberta dos ervais naquele sertão. A descoberta que lhe rendeu o título, no entanto, só foi possível pela experiência dos indígenas de Nonoai. Estes, contudo, não receberam qualquer reconhecimento por parte do Estado.

Reconhecer esse papel é também repensar quem tem direito ao território hoje. O avanço sobre os chamados “vazios” não pode ser desassociado do deslocamento forçado dos indígenas que já os habitavam. O Estado não reconhecia, e em muitos casos ainda não reconhece, as formas indígenas de ocupação do espaço como legítimas. O caso do Campo das Vacas Brancas é um exemplo preciso de como essa contradição funcionava: o conhecimento indígena era indispensável para a formação do território, mas os indígenas foram apagados do processo e das terras que ajudaram a cartografar.

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Legenda do excerto: A região descoberta pela expedição da qual fizeram parte os indígenas de Nonoai liderados pelo cacique Antônio Prudente pode ser observada na porção noroeste do Rio Grande do Sul, próximo à fronteira com a Argentina. Mais à direita do mapa, ainda na província do Rio Grande do Sul, podemos observar a região marcada para o Aldeamento de Nonoai.


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiProf. Amanda Chiamenti Both

É pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de História da Universidade de São Paulo e bolsista Fapesp, processo nº2023/17965-0.

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SAIBA MAIS:

CHRISTILLINO, Cristiano Luís. Litígios ao sul do Império: a Lei de Terras e a consolidação política da Coroa no Rio Grande do Sul (1850-1880). Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2010.

DIEHL, Isadora Talita Lunardi. Criando fronteiras: Guaranis e Kaingangs diante dos processos de invisibilização pelo Estado (Rio Grande do Sul, século XIX). Tese (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em História, 2023.

KERN, Arno A.; SANTOS, M. Cristina dos; GOLIN, Tau (Dir.). Povos Indígenas. Passo Fundo: Méritos, 2009, V.5 (Coleção História Geral do Rio Grande do Sul).