AS MARIAS DA CONCEIÇÃO - POR UM ENSINO DE HISTÓRIA SITUADO

 

Vencedora do 1° Prêmio Déa Fenelon.

A prática pedagógica de Ensino de História que aqui apresento, foi tecida através do experimento pedagógico-teórico-metodológico explorado na minha pesquisa de Mestrado Profissional em Ensino de História cursado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da qual emergiu o conceito de Ensino de História Situado. Sem dúvida, este processo é o aprofundamento do trabalho que desenvolvo desde 2012 como professora de História na Escola Estadual de Ensino Fundamental Santa Luzia, que atende a comunidade da Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre. Minha trajetória como professora é marcada pela implicação com as alunas, alunos e comunidade, com quem compartilho, além de afetos, o processo de construção de conhecimento histórico escolar.

O Ensino de História Situado se insere no campo das Pedagogias Decoloniais, inspira-se na Pedagogia das Encruzilhadas (RUFINO, 2015), tem como aporte principal o Pensamento Feminista Negro, e articula a Interseccionalidade (CRENSHAW, 2002) como estratégia analítica à investigação histórica dos bens culturais aos quais a comunidade escolar atribui sentido de Patrimônio.

Nosso processo pedagógico culminou com o documentário As Marias da Conceição - por um Ensino de História Situado. Trata-se de uma produção audiovisual com técnicas rudimentares (celulares e Movie Maker), realizada com as alunas e alunos de 8° e 9° anos da escola, a partir dos nossos percursos investigativos acerca da História das mulheres da Vila Maria da Conceição e da relação que estas estabelecem com o Patrimônio Comunitário.

Em parceria com a comunidade escolar, com o APERS – Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul e com o Arquivo Municipal Moysés Vellinho, realizamos o levantamento das fontes históricas que tomamos como ponto de partida para a investigação. As alunas e alunos interrogaram quatro conjuntos de documentos e transcreveram suas descobertas e análises em diários de campo coletivos. Um inventário (1882) e 12 cartas de Liberdade (1863-1882) foram pesquisados pelos dois grupos que se dedicaram a estudar a ancestralidade da presença negra no bairro Partenon, onde a Vila Maria da Conceição fica localizada. Essa presença se expressa através da Academia Samba Puro, escola de samba da comunidade, e das Casas de Religião de Matriz Africana. O terceiro grupo investigou o processo crime de Maria Francelina Trenes, a Maria Degolada (1899). Por fim, o último grupo explorou a história da Pequena Casa da Criança em matérias do jornal Zero Hora (1963-1986) e no livro Miséria quem te gerou? da Irmã Nelly Capuzo (1964). Esses bens culturais foram tombados simbolicamente como Patrimônio da Comunidade em momento anterior a este trabalho.

Registramos todo o processo com câmeras de telefone celular: entrevistas de História Oral, espaços com significado de Patrimônio para a comunidade e visitas a Museus e Arquivos para a exploração das fontes históricas. O convite foi para uma análise interseccional desta documentação pelas alunas e alunos, ou seja, que considerasse os marcadores sociais de raça, gênero e classe , e refletisse sobre como esses operam nas condições de possibilidades de existência de indivíduos e grupos.

Posteriormente, os estudantes realizaram a construção de narrativas históricas a partir da filmagem da explicação das fontes históricas analisadas, utilizando as mais diversas linguagens: textos, teatro, música, dança e desenho. Ao final, realizamos um Seminário de Roteiro, cujas ideias orientaram a edição do vídeo. Nessa etapa assistimos as filmagens da nossa caminhada, selecionamos e ordenamos cenas, pensamos a necessidade de narração, transição, efeito, legenda e trilha sonora.

O Ensino de História Situado é processual e não se apresenta enquanto metodologia, mas como uma ética ao Ensinar História. Ao evidenciar as posições de sujeito nos discursos enunciados em fontes históricas e operar entre as identidades e as diferenças com foco nas relações de poder, essa estratégia colabora para o empoderamento das alunas e alunos ao construir narrativas históricas situadas nos seus locais de fala e nas memórias e saberes da sua comunidade.

 

PDF para o trabalho completo aqui.

 

revista unesp

Mary 5

 


Vídeo do projeto


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiProfa. Carla de Moura


Doutoranda em História (PPGHist/UFRGS). Possui graduação em História (Bacharelado) pela Universidade Luterana do Brasil (2011), graduação em História (Licenciatura) pela Universidade Luterana do Brasil (2012), Pós Graduação em Estudos Culturais nos Currículos Escolares Contemporâneos da Educação Básica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2015) e Mestrado Profissional em Ensino de História (PROFHISTÓRIA) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2018). Foi professora de História nomeada nas escolas E.E.E.F. Santa Luzia e E.E.E.F. Duque de Caxias pela Rede Estadual de Ensino do Rio Grande do Sul (2012 - 2021). Tem experiência na área de História com ênfase no campo do Ensino de História e Educação Patrimonial. Atua principalmente nos seguintes temas: Ensino de História, Educação para as relações étnico raciais, Estudos de Gênero e Sexualidade e Interseccionalidade.